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América Latina é como um imenso mosaico de expressões culturais, naturais e
históricas que tendem a se unir harmonicamente. No início do século XVIII Simon
Bolívar já percebera isso. Nós, brasileiros, somos o povo que menos se apoderou
dessa aproximação digamos que, espiritual. Dentre outros fatores talvez o
isolamento territorial – grande parte de nossas fronteiras é floresta - e o
idioma - único a adotar a língua portuguesa como oficial - influencie um pouco.
Frei Betto gosta de mencionar que a história política recente do continente é
reflexo dessa unidade. De meados dos anos 50 até os anos 80 grande parte dos
países viveu sob ditaduras apoiadas pelos EUA, foi assim com a Argentina,
Chile, Brasil, Paraguai, Cuba e Equador. Diante da insustentabilidade desses
regimes o capital fez outra aposta, a qual ele batizou com o singelo pseudônimo
de “neoliberalismo”.
Não eram mais os tanques e a tortura que impunham amarras
à população, agora o mercado globalizado, com uma fantasiosa aparência de
liberdade, que seria o responsável por esse julgo. Isso se daria até meados dos
anos 2000 (esse fim, porém, é questionável, como discutiremos mais a frente).
Todavia, em decorrência principalmente de movimentos surgidos na base, que
conseguiram canalizar toda a insatisfação da população em resultados nas urnas,
florescem na América Latina diversos governos com perfil de esquerda ou pelo
menos centro esquerda. No Equador Rafael Correa, na argentina Cristina
Kirchner, no Paraguai o Bispo Fernando Lugo, na Venezuela Hugo Chaves, Lula no
Brasil, na Bolívia Evo Morales e no Uruguai Pepe Mojica. Mudanças sociais
sensíveis começaram a acontecer. No Brasil milhões saem da linha de pobreza;
Venezuela e Equador erradicam o analfabetismo e na Bolívia depois de séculos os
índios tem participação politica. A emergência de governos progressistas potencializou
a aproximação entre os hermanos latinos.
Quer dizer então que vencemos e o
capital está em um auto-exílio em Miami se saciando das últimas coca-colas
existentes? Infelizmente não chegamos a esse ponto, e ainda corremos o risco de
estarmos nos inserindo no processo inverso. Com a honrosa exceção da Venezuela
e a heroica resistência cubana, em que pese os avanços sociais, ainda não fomos
capazes de realizar qualquer reforma estrutural que negasse a lógica do capital
no processo de desenvolvimento da América Latina, ao contrário, entramos na
última moda da 5ª Avenida de New York, o neodesenvolvimentismo. Mudaram-se
alguns princípios, mas o paradigma é mesmo: produzir para avançar. Até bem
pouco tempo a esquerda era uma pedra incômoda no sapato do capital, hoje
precisa de seu auxílio pra sua política de governo. A maioria, talvez, ainda
não tenha percebido o perigo dessa escolha. E nessa roleta russa (?) do mercado
sobram as balas pros povos tradicionais e a natureza, históricos “inimigos do
desenvolvimento”. Hidroelétricas, portos, nucleares, privatização do petróleo, estádios...
parafernália...cartões postais dessa mais nova geografia sócio-política do
grande continente, enquanto isso, na sala de estar, as multinacionais acumulam recordes
de lucro. Em Belo Monte povos indígenas serão apagados da história. No sertão
nordestino seis mil agricultores desterritorializados na Chapada do Apodi. E no
mesmo vagão desse trem, os Estados vem perdendo a capacidade de ouvir e
dialogar com os grupos afetados.
Não quero dizer que os avanços dos últimos
anos não foram significativos, o que afirmo é que até agora as nossas
conquistas com suor e sangue permanecem ainda dentro da aceitabilidade da
direita, que não permitirá mais avanços, e que pra maiores mudanças será
necessário rompimentos mais radicais, sob o risco da dormência governamental e
uma guinada à direita. O jogo está cantado: romper e avançar ou permanecer e
regredir. De antemão tiramos alguns aprendizados do que vivemos até aqui:
primeiro, o Estado representativo, mesmo que com um manto de esquerda, não nos
serve mais. Precisamos democratizar a democracia (Boaventura Santos). Em geral
as representações partidárias, elevadas à governança, não tiveram a
sensibilidade de ouvir o apelo de vozes que fugissem à cacofonia da
produtividade. O tempo dos partidos é também de homens e mulheres partidas. “Os
lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto e escreve-se na pedra”(Drummond).
Segundo, a esquerda precisa também se reinventar. A lógica ocidental de
consumo, insistentemente adotada pela esquerda ortodoxa é cada vez mais assassina,
suicida, ecocida e pobrecida.
O filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard afirmou:
[A sociedade de hoje] é um navio que está nas mãos do cozinheiro de bordo; e as
palavras transmitidas pelo auto-falante do comandante não dizem mais respeito à
rota (que já não interessa), mas ao que se comerá em seguida”. A busca
desenfreada pelo produtivismo sem limites (seja de direita ou esquerda) fez com
que hoje nós ultrapassássemos em 30% o limite de auto-sustentabilidade da
Terra. Apenas um planeta para nós já não é mais suficiente. Consumimos em pouco
mais de duzentos anos o que a natureza custou bilhões de anos para construir.
Fruto da busca pela super-produção de produtos inúteis que duram cada vez
menos. Rasgamos os limites da terra, desde a procura desenfreada por minérios e
recursos naturais, passando pela poluição gerada pelas indústrias e suas
toneladas de lixo, chagando ao descarte dos produtos que usamos cada vez mais
por menos tempo. Em contraste a essa busca lunática pelo lucro, segundo
relatório da ONU, mais de 900 milhões de pessoas passam fome no mundo.
Especialistas afirmam que a doença do futuro será a depressão, fruto do vazio
existencial pregado pelo sociedade “civilizada”. Estamos em um grande barco
chamado Terra e que todos, queiramos ou não, teremos um destino comum. Nessa
barbárie os indígenas e povos tradicionais são os mais afetados, mas também os
únicos que podem nos jogar um bote salva-vidas. Engatemos a marcha ré e
busquemos na sabedoria de nossos antepassados o caminho a seguir. É em nossas
raízes não civilizadas, principalmente a indígena, que encontraremos a bússola
capaz de nos guiar pelo caminho correto de ruptura com esse sistema de morte.
Para
isso teremos que passar por um processo “descivilizatório”, contrariando tudo
que nos é imposto como civilizado, principalmente a lógica do consumo. É
momento de se repensar a esquerda a partir dos paradigmas que nossos povos
construíram milenarmente, e não são poucos. Sumak kawsay, sociedade do
bem-viver para as tribos andinas; Lekil Kuxlejal para os Mayas. Impressiona a
unidade dos povos ancestrais com a Pacha Mama (Mãe Terra), chegando ao ponto de
formar uma só coisa, como nas palavras de CHANK'IN, ancião indígena Lacandon:
“O que a gente da cidade não compreende é que as raízes de todos os seres vivo
estão entrelaçadas. Quando uma árvore majestosa é derrubada, cai uma estrela do
céu. Antes de se cortar uma árvore se deveria pedir licença ao guardião das
estrelas”. A opção por uma vida simples, banhada pelo necessário, chamada de
eco-simplicidade, é outra meta a ser atingida. Como disse Gandhi, “é preciso
viver mais simplesmente para que os outros simplesmente possam viver”. Uma
revolução que não seja medida pela capacidade de consumir e ser consumido, mas que
possua uma cosmovisão que incorpore o carinho, o cuidado e o afeto. Uma
revolução que não nos ensine a cuidar do outro não será uma transformação
completa. Rejeitar a alienação que nos é imposta de que a nossa felicidade está
condicionada a aquisição que bens de consumo é algo urgente. Volver nossa
felicidade para as coisas que realmente importam fará com que nos reencontremos
com nós mesmos, já que separados pelo vazio cotidiano.
Aqui das selvas do
México tem ecoado uma guerrilha poética que se traduz em Zapatismo. Desde que
saíram de um silêncio de dez anos e tomaram várias cidades do estado de Chiapas
os zapatistas começaram a construir um outro mundo possível. Guiados por uma
luta contra o capital somada a uma visão de esquerda que incorpora a cosmovisão
dos povos ancestrais - “um mundo onde caibam todos os mundos” “Para todos tudo,
para nós nada” “abaixo e esquerda está o coração” - os filhos da noite
reinventam, a seu modo, a luta anticapitalista. Mas essa é uma história pra
outro momento... De pronto, ouçamos o grito que vem de baixo e façamos eco, assim
seremos bievenidos a la dignidad rebelde....“Escutaram? É o som do seu mundo desmoronando. É o do nosso
ressurgindo. O dia que foi o dia, era noite. E noite será o dia que se tornará
o dia. Democracia! Liberdade! Justiça!”
San Cristobal de
las Casas, Chiapas, México, Aby Ayala.