segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Não tenhamos pressa. Mas também não percamos tempo. Sem-terrinha Vanessa: presente na caminhada!





            Sonho em ver o dia em que uma vida seja valorizada pelo simples fato de ser uma vida, e não pelo status social que representa. A humanidade não será digna de receber esse nome – humanidade - enquanto o roubo de um celular ou o vidro de um banco quebrado escandalizar mais do que a vida de um pobre roubada por uma bala perdida que é achada em seu corpo negro.

            Uma das grandes vitórias do capitalismo foi ter colocado o povo pra brigar entre si, mascarando a realidade de que somos todos e todas integrantes de uma classe oprimida que, para sua libertação, precisa se reconhecer como tal.

             Tamanha é a revolta de um trabalhador, de uma dona de casa, de uma professora, de um motorista, quando tem que perder 40 minutos de seu dia em razão de um engarrafamento causado por um protesto. O individualismo de nossos tempos tem nos deixado indiferentes a dor do outro. Pressa de produzir. Pressa de consumir. Não sabe o trabalhador, a dona de casa, a professora, o motorista, que perder 40 minutos na verdade não é perder, é doar um pouco de sua vida para que o outro e a outra também possam ter vida.

        Admiro com todas as minhas forças o povo que se organiza mesmo contra a esmagadora opinião pública, como é o caso do MST. Não sei se vocês já perceberam, mas não é a coisa mais divertida do mundo morar por anos em um barraco de lona. Calor, frio, fome, violência, medo, discriminação. Só posso achar que existe um outro significado pra palavra “vagabundo” em algum dicionário que muita gente leu e eu ainda não encontrei nas livrarias. Esses dias, ciclistas, daqueles que se dão ao luxo de pedalar nas manhãs antes de pegar seu carro para ir ao trabalho passaram em frente a um acampamento do MST viram duas senhoras e gritaram: “vão trabalhar vagabundas”. O nível de imbecilidade de um ser desses é difícil de medir. Gostaria de ter a oportunidade de propor a troca por apenas uma semana. A agricultora sem-terra e vagabunda pedalaria nas manhãs em sua bicicleta de três mil reais, assim cultivando a saúde e o ciclista – possível empresário – dormiria em um barraco de lona preta sem agua a luz. Talvez assim ele mudasse pelo menos um pouco seu conceito.

           Escrevo esse texto em meio a uma dor profunda que invadiu sem pedir licença os corações dos sem-terra do Brasil. Vanessa, 12 anos, sem-terrinha acampada a beira de uma estrada em Mossoró/RN foi atropelada logo após se despedir de sua mãe que saia para atividades do movimento. O motorista, desesperado, fugiu. Pedro Munhoz canta: Quem contar traz à memória/sabendo que a dor existe/quando a morte ainda insiste/em calar quem faz a História/Pois quem morre não tem glória/nem tampouco desespera/é um valente na guerra/tomba, em nome da vida/Da intenção ninguém duvida. Continua: o Estado é quem enterra/e uma vida se encerra/em nome da covardia/Toda a nossa rebeldia/quando matam um Sem Terra.

              É mais uma vítima do Estado que se nega a fazer reforma agrária. É mais sangue de gente humilde que rega o chão que queria ver dividido. É mais um sonho interrompido de uma criança que julgava poder fazer a revolução. É o relógio da vida para sempre interrompido, alegria – mesmo que inconsciente – daqueles/as que no auge de seu egoísmo se negam a ver no sofrimento do outro o seu sofrimento. A nossa pressa em ver a polícia “quebrando tudo” é a mesma que impede as mudanças estruturais nesse país e que, a cada dia, ceifa a vida de nosso povo.

           Hoje a sem-terrinha Vanessa habita no mesmo panteão que Irmã Dorothy, Chico Mendes, Margarida Alves, Padre Jozimo e tantos/as outros/as mártires da caminhada que a única pressa que tiveram foi a de fazer um outro mundo possível e necessário.

Sem-terrinha Vanessa: presente na caminhada!


Até quando? Sempre, sempre, sempre!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Nuestro sul – Aby Ayala

Esse texto foi publicado originariamente no site do Instituto Humanitas Unisinos (http://www.ihu.unisinos.br/noticias/526624-nuestro-sul-aby-ayala) e no jornal marginal "O Pirata".


A América Latina é como um imenso mosaico de expressões culturais, naturais e históricas que tendem a se unir harmonicamente. No início do século XVIII Simon Bolívar já percebera isso. Nós, brasileiros, somos o povo que menos se apoderou dessa aproximação digamos que, espiritual. Dentre outros fatores talvez o isolamento territorial – grande parte de nossas fronteiras é floresta - e o idioma - único a adotar a língua portuguesa como oficial - influencie um pouco. Frei Betto gosta de mencionar que a história política recente do continente é reflexo dessa unidade. De meados dos anos 50 até os anos 80 grande parte dos países viveu sob ditaduras apoiadas pelos EUA, foi assim com a Argentina, Chile, Brasil, Paraguai, Cuba e Equador. Diante da insustentabilidade desses regimes o capital fez outra aposta, a qual ele batizou com o singelo pseudônimo de “neoliberalismo”. 

Não eram mais os tanques e a tortura que impunham amarras à população, agora o mercado globalizado, com uma fantasiosa aparência de liberdade, que seria o responsável por esse julgo. Isso se daria até meados dos anos 2000 (esse fim, porém, é questionável, como discutiremos mais a frente). Todavia, em decorrência principalmente de movimentos surgidos na base, que conseguiram canalizar toda a insatisfação da população em resultados nas urnas, florescem na América Latina diversos governos com perfil de esquerda ou pelo menos centro esquerda. No Equador Rafael Correa, na argentina Cristina Kirchner, no Paraguai o Bispo Fernando Lugo, na Venezuela Hugo Chaves, Lula no Brasil, na Bolívia Evo Morales e no Uruguai Pepe Mojica. Mudanças sociais sensíveis começaram a acontecer. No Brasil milhões saem da linha de pobreza; Venezuela e Equador erradicam o analfabetismo e na Bolívia depois de séculos os índios tem participação politica. A emergência de governos progressistas potencializou a aproximação entre os hermanos latinos. 

Quer dizer então que vencemos e o capital está em um auto-exílio em Miami se saciando das últimas coca-colas existentes? Infelizmente não chegamos a esse ponto, e ainda corremos o risco de estarmos nos inserindo no processo inverso. Com a honrosa exceção da Venezuela e a heroica resistência cubana, em que pese os avanços sociais, ainda não fomos capazes de realizar qualquer reforma estrutural que negasse a lógica do capital no processo de desenvolvimento da América Latina, ao contrário, entramos na última moda da 5ª Avenida de New York, o neodesenvolvimentismo. Mudaram-se alguns princípios, mas o paradigma é mesmo: produzir para avançar. Até bem pouco tempo a esquerda era uma pedra incômoda no sapato do capital, hoje precisa de seu auxílio pra sua política de governo. A maioria, talvez, ainda não tenha percebido o perigo dessa escolha. E nessa roleta russa (?) do mercado sobram as balas pros povos tradicionais e a natureza, históricos “inimigos do desenvolvimento”. Hidroelétricas, portos, nucleares, privatização do petróleo, estádios... parafernália...cartões postais dessa mais nova geografia sócio-política do grande continente, enquanto isso, na sala de estar, as multinacionais acumulam recordes de lucro. Em Belo Monte povos indígenas serão apagados da história. No sertão nordestino seis mil agricultores desterritorializados na Chapada do Apodi. E no mesmo vagão desse trem, os Estados vem perdendo a capacidade de ouvir e dialogar com os grupos afetados. 

Não quero dizer que os avanços dos últimos anos não foram significativos, o que afirmo é que até agora as nossas conquistas com suor e sangue permanecem ainda dentro da aceitabilidade da direita, que não permitirá mais avanços, e que pra maiores mudanças será necessário rompimentos mais radicais, sob o risco da dormência governamental e uma guinada à direita. O jogo está cantado: romper e avançar ou permanecer e regredir. De antemão tiramos alguns aprendizados do que vivemos até aqui: primeiro, o Estado representativo, mesmo que com um manto de esquerda, não nos serve mais. Precisamos democratizar a democracia (Boaventura Santos). Em geral as representações partidárias, elevadas à governança, não tiveram a sensibilidade de ouvir o apelo de vozes que fugissem à cacofonia da produtividade. O tempo dos partidos é também de homens e mulheres partidas. “Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto e escreve-se na pedra”(Drummond). Segundo, a esquerda precisa também se reinventar. A lógica ocidental de consumo, insistentemente adotada pela esquerda ortodoxa é cada vez mais assassina, suicida, ecocida e pobrecida. 

O filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard afirmou: [A sociedade de hoje] é um navio que está nas mãos do cozinheiro de bordo; e as palavras transmitidas pelo auto-falante do comandante não dizem mais respeito à rota (que já não interessa), mas ao que se comerá em seguida”. A busca desenfreada pelo produtivismo sem limites (seja de direita ou esquerda) fez com que hoje nós ultrapassássemos em 30% o limite de auto-sustentabilidade da Terra. Apenas um planeta para nós já não é mais suficiente. Consumimos em pouco mais de duzentos anos o que a natureza custou bilhões de anos para construir. Fruto da busca pela super-produção de produtos inúteis que duram cada vez menos. Rasgamos os limites da terra, desde a procura desenfreada por minérios e recursos naturais, passando pela poluição gerada pelas indústrias e suas toneladas de lixo, chagando ao descarte dos produtos que usamos cada vez mais por menos tempo. Em contraste a essa busca lunática pelo lucro, segundo relatório da ONU, mais de 900 milhões de pessoas passam fome no mundo. Especialistas afirmam que a doença do futuro será a depressão, fruto do vazio existencial pregado pelo sociedade “civilizada”. Estamos em um grande barco chamado Terra e que todos, queiramos ou não, teremos um destino comum. Nessa barbárie os indígenas e povos tradicionais são os mais afetados, mas também os únicos que podem nos jogar um bote salva-vidas. Engatemos a marcha ré e busquemos na sabedoria de nossos antepassados o caminho a seguir. É em nossas raízes não civilizadas, principalmente a indígena, que encontraremos a bússola capaz de nos guiar pelo caminho correto de ruptura com esse sistema de morte. 

Para isso teremos que passar por um processo “descivilizatório”, contrariando tudo que nos é imposto como civilizado, principalmente a lógica do consumo. É momento de se repensar a esquerda a partir dos paradigmas que nossos povos construíram milenarmente, e não são poucos. Sumak kawsay, sociedade do bem-viver para as tribos andinas; Lekil Kuxlejal para os Mayas. Impressiona a unidade dos povos ancestrais com a Pacha Mama (Mãe Terra), chegando ao ponto de formar uma só coisa, como nas palavras de CHANK'IN, ancião indígena Lacandon: “O que a gente da cidade não compreende é que as raízes de todos os seres vivo estão entrelaçadas. Quando uma árvore majestosa é derrubada, cai uma estrela do céu. Antes de se cortar uma árvore se deveria pedir licença ao guardião das estrelas”. A opção por uma vida simples, banhada pelo necessário, chamada de eco-simplicidade, é outra meta a ser atingida. Como disse Gandhi, “é preciso viver mais simplesmente para que os outros simplesmente possam viver”. Uma revolução que não seja medida pela capacidade de consumir e ser consumido, mas que possua uma cosmovisão que incorpore o carinho, o cuidado e o afeto. Uma revolução que não nos ensine a cuidar do outro não será uma transformação completa. Rejeitar a alienação que nos é imposta de que a nossa felicidade está condicionada a aquisição que bens de consumo é algo urgente. Volver nossa felicidade para as coisas que realmente importam fará com que nos reencontremos com nós mesmos, já que separados pelo vazio cotidiano. 

Aqui das selvas do México tem ecoado uma guerrilha poética que se traduz em Zapatismo. Desde que saíram de um silêncio de dez anos e tomaram várias cidades do estado de Chiapas os zapatistas começaram a construir um outro mundo possível. Guiados por uma luta contra o capital somada a uma visão de esquerda que incorpora a cosmovisão dos povos ancestrais - “um mundo onde caibam todos os mundos” “Para todos tudo, para nós nada” “abaixo e esquerda está o coração” - os filhos da noite reinventam, a seu modo, a luta anticapitalista. Mas essa é uma história pra outro momento... De pronto, ouçamos o grito que vem de baixo e façamos eco, assim seremos bievenidos a la dignidad rebelde....“Escutaram? É o som do seu mundo desmoronando. É o do nosso ressurgindo. O dia que foi o dia, era noite. E noite será o dia que se tornará o dia. Democracia! Liberdade! Justiça!”
                               
                                              San Cristobal de las Casas, Chiapas, México, Aby Ayala.




domingo, 29 de dezembro de 2013

De um total...

01:30 horas do que se entende por tarde, a segunda parte do dia de um total de três. Um pé após o outro, dois, de um total de um par, seguem freneticamente em direção ao ponto de ônibus. Ritual repetido religiosamente seis dias da semana de um total de sete. O sol está no céu e o céu é o sol. Estrela, de bocado de tantas. Sente-a tão próximo a cabeça que tem a impressão de poder alcançá-la com uma das mãos, de um total de presas. Não o faria, precisa delas sem qualquer dano para o trabalho do dia. Dia de trabalho mensal, de um total de mais-valia. Esperaria. De um total de caso, causo, descalço. Descaso. Ônibus, de um total de poucos. Ruas, de um total de gente. Muitas, de uma aparência de tantas. Sonhos, de um total de estrelas.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Natal em Utopia

        Como aqui, é natal em Utopia. Nesta época, mais do que em qualquer outra do ano, a cidade se alegra. Hoje recebi um e-mail de um velho amigo utopiense. Perguntava se não iria visitá-lo nas comemorações natalinas. Falei que infelizmente não poderia ir, estava ocupado demais com o trabalho. Interessante como os utopienses sempre ficam surpresos quando lhes falo do nosso Natal. Surpreendem-se com a árvore, com a neve, com as luzes e tantas outras coisas que em Utopia não existem. Riem por comemorarmos o Natal de forma individual e por haver em nossas casas grades que, segundo eles, fazem-nos prisioneiros. Acham curioso também a troca de presentes, talvez porque eu não tenha conseguido explicar a ligação entre eles, a data e o papai noel. Soltam sorrisos quando lembram daquele episódio na França, por volta de 1950, quando a população enforcou e queimou em praça pública o bom (?) velhinho. Quem fala disso melhor que eu é Levi-Strauss no que ele chamou de “o suplício do papai noel”. Depois perguntem-no, vocês vão gostar da história. 

        Então, lá em Utopia todos sabem qual o seu real significado e por isso celebram-no. Até os não-cristãos comemoram a data. Apesar de não creditarem no menino-Deus dizem eles existir algo mágico neste dia. De fato, o ideal de esperança, amor e justiça não tem credo.  Dizem eles que não precisam ser teístas para admirar alguém que por questionar a religião e a sociedade de sua época foi torturado, preso e executado, sendo um verdadeiro mártir político. 

       Pena que a maioria dos que se dizem seus seguidores tenham esquecido disso, e feito da religião um instrumento de alienação e opressão. Interessante como esse tempo longe de Utopia já tinha me feito esquecer as diferenças que existentes entre aqui a aquela longínqua ilha. Então é Natal, já dizia aquela velha (e chata) canção. Aqui é tempo de enfeitar a árvore, de trocar presentes, de reformar a casa, e só (isso, claro, para a ainda minoria que pode fazer isso). E só. Não precisamos de mais nada. Já temos até as luzinhas. Agradecemos ao menino Cristo por nos emprestar a sua data. Como há dois milênios atrás a história de repete. O menino não tem onde nascer (seria o fundador do movimento dos sem-teto?). A árvore é muito grande, ocupa espaço demais, ficaria feio, anti-estético. Imagina só ter que tirar a árvore? Mas desconfio que Ele prefira assim, nunca iria conseguir dormir com aquelas luzinhas piscando sem parar. Acho que lhe agrada mais o escuro de uma marquise ou de uma ponte. Aqueles brinquedos também o chateiam, eles brincam sozinhos. É mais afeito aos animais, são simpáticos, não precisam de pilhas. Na ponte há vários deles. Lá em Utopia Cristo nasce no coração dos homens. 

      Aqui, qual sem-teto, tem como berço pontes, guetos e favelas. Mas com isso uma coisa é certa: ao nascer entre os esfarrapados do mundo Cristo fez e faz opção de classe.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Visita intergaláctica


          No último domingo pela manhã (08/12) uma comissão intergaláctica composta por representantes dos planetas Zeta-25, Beta 12, Alfa-ômega e Plutão chegou pela terra. Objetivo? Aprender um pouco sobre nosso sistema de comunicação em massa. Segundo o informativo "O eco do universo", cujo exemplar tenho aqui em minha mesa, vizinho ao copo de suco de goiaba, a expedição duraria um mês (no tempo terreno), e se dava em razão das várias reclamações por parte dos habitantes da galáxia. Segundo eles, os meios de comunicação do resto do universo estariam deixando a desejar na transmissão da cultura e cidadania, parece que apenas 80% da programação era dedicada à esses temas, estavam revoltados. Depois de ter acesso à uma revista do planeta terra - que um habitante do cometa Lonytik-Y teria ganho em uma de suas vindas pelo Brasil - a qual relatava as maravilhas de nossa comunicação, resolveram vir até aqui e aprender um pouco de nossos métodos revolucionários. O nome da revista era algo como "observe", "olhe", "Veja"... Algo nesse sentido.

       Pois bem, segundo o informativo, a análise seria feita pela programação dos canais de TV já que, na concepção da comissão extraterrena, seria o meio mais globalizado de se entender a comunicação pelas bandas de cá. Depois de uma avaliação onde seria o melhor local pra começar a pesquisa estacionaram sua nave exatamente sobre o céu da grande São Paulo. Alguns problemas apareceram. Mesmo trazendo seu material mais avançado, produzido pela zona franca da estrela Zion-C, a massa cinza de poluição que rodeava a nave impediu qualquer visualização do exterior. O capitão da operação tossia compulsivamente e a comunicação com o resto da galáxia já enfrentava problemas. Como dizia o filósofo espanta, São Paulo é a cidade do Brasil em que a gente vê o ar que respira. Isso sem falar nos pedágios - nas alturas, literalmente - que já comprometiam a verba conseguida via edital aprovado junto à ONU (Organização das naves unidas). Captando wifi de um dos arranha céus que de tão altos permitiam puxar seu sinal da estratosfera, além de impedir a circulação do ar e contribuir pra poluição, descobriram um lugar melhor pra ir. Foram para as bandas do Ceará. 

        Segundo o cruzamento de informações, o ponto mais propício para a pesquisa seria entre Mossoró e Fortaleza, precisamente em Aracati, a marola vinda de Canoa Quebrada teria uma capacidade incrível de harmonizar os sinais de transmissão. Porém, mais uma vez a pesquisa enfrentou turbulências. Ao passarem por Mossoró o sistema de localização entrou em pane, pelo cruzamento das informações do radar, como vento, umidade e principalmente temperatura do ar, os computadores de bordo identificavam a nave em algum lugar próximo ao sol. Os localizadores não se entendiam. Mesmo a latitude e longitude apontando para uma posição geográfica no nordeste brasileiro, os indicadores de temperatura ultra avançados se negavam a aceitar que não estavam na órbita solar.

        Já quase lançando seu alerta vermelho pro universo, que é usado em casos de extremo perigo, os tripulantes começaram a ouvir sons que não poderiam ser explosões de calor - como as da grande estrela - mas produzidos por um maquinário avançado. Até hoje eles não entendem bem do que se tratava, mas acreditam ter sido algum ritual religioso. As vestimentas das pessoas eram padronizadas e os cabelos também. No centro, o objeto do culto, na verdade vários deles, ao qual chamavam de "paredão". As pessoas estavam em volta, sem se comunicar entre elas, apenas atentas às palavras que saíam do que parecia ser o Deus daquele povo. Ao que parece eram politeístas e muito tolerantes, já que os vários "deuses" estavam um ao lado do outro a falar em grandes volumes coisas desencontradas que impediam de se ouvir perfeitamente qualquer palavra, mas todos pareciam felizes. Concluíram que "ão" se refere a algo espiritual, na cerimonia eram comuns expressões como "aqui é o som do avião" "segura safadão" e "sou putão". Isso foi uma grande prova de que as religiões trazem sempre a paz à humanidade, além de servirem como localizador pra viajantes de outros planetas. Depois de perceberem que estavam ainda na terra, resolveram se comunicar com os governantes daquele local.

      Nesse momento a crise se agravou ainda mais, já que a busca por essa figura não teve sucesso. Chegaram a pensar que seria uma comunidade anarquista avançada, sem líderes, mas logo viram que Tólstoi não tinha vingado por ali. Perguntadas sobre onde estaria o chefe, ou a chefe daquele povo, as pessoas apresentavam respostas totalmente sem sentido, como se a cada espaço curto de tempo a cidade tivesse um governante diferente, por causa de uma tal de cassação, compra de votos, prefeita highlander... já desistindo de tentar entender concluíram que seria algo como um revezamento, pronto. Seguiram rumo à cidade de Aracati, onde tiveram mais um problema de localização, dessa vez em razão da fonética. Nas aulas de português realizadas antes da visita, na escola interplanetária do cometa Bug-Bug, teriam aprendido o português coloquial, sem sotaques ou qualquer variação cultural. Daí que não encontraram a cidade de Aracati, mas Aracatxi. A linguagem do nativos era algo também muito novo pra tripulação "Tu é abestado má? vem lá da basta da égua pra fazer o que aqui? ô fulerage iiiieeerrrrrrr!” (esse som ainda não identificado era comum na boca daquele povo). Pois bem, já cansados e sem entender muita coisa amarraram a nave na nuvem mais próxima e se aquietaram por Aracati, melhor, Aracatxi. 

         De lá, sentados em forma de meia lua tendo grandes aparelhos de tv a sua frente, iniciaram as captações. Logo no primeiro canal tiveram uma surpresa, mulheres desfilavam com uma vestimenta que denominavam de lingerie, fato esse que se repetia no segundo, terceiro e quarto canal, e ao mesmo tempo. Aquilo parecia mais uma exposição de objetos a venda, e não eram as lingeries. Continuando a análise das emissoras chegaram em um ritual religioso, um pouco diferente do que tinha visto com a religião dos paredões (o que reforça a ideia desse povo ser politeísta). Nesse o líder falava de suas dificuldades financeiras, e de como seria importante presentar sua humilde e bela filha com um carro novo. Pedia a sensibilidade dos fiéis. Deus não esqueceria disso. Em outros canais outras cerimônias, mudava-se apenas a necessidade do líder, em um deles falava da importância de ter férias em Miami, estava muito cansado. Nesse algumas pessoas depositaram a seus pés uns poucos bens que tinham pra ajudar o servo do senhor. Em um deles passava também um homem que pulava e chamava uns animais pra subir numa tal de uma arca. Esse foi mais difícil de entender, principalmente qual a razão espiritual desses pulos. Enfim.

         Em outro canal, que parecia muito famoso, um senhor com roupa esquisita falava sem parar e fingia entrevistar pessoas. Fingia porque sempre interrompia o dizia os entrevistados e soltava um som tribal como "ô loco meu". Na emissora seguinte um homem de meia idade vendia um zilhão de produtos, sem, todavia, conseguir explicar qual a necessidade da maioria deles. Nesse mesmo canal, logo após as vendas, inicia um programa que parecia ter o intuito de resolver problemas familiares. As pessoas iam até a TV, sob o olhar de milhões de pessoas, dizer que foram traídas. No momento ápice da revelação o apresentador chama os comerciais. A comissão muda de canal e vê pessoas se digladiando. Chegaram a pensar que seria uma encenação épica medieval (como tinham lido sobre a história da terra), mas perceberam que se tratava de uma briga generalizada entre torcedores de um esporte onde os jogadores ganham milhões e não estão nem um pouco preocupados com o sangue de seus fãs que se espancam sem nenhum motivo racional aparente. É nesse momento que um dos membros da comissão bate na mesa, interrompe a transmissão e grita: “para, para, para! Fomos enganados. Vamos embora”. Depois de uma rápida reunião, a comissão intergaláctica, desapontada, antecipa sua volta, concluíram que não havia vida inteligente na terra.

Obs: A ficção é uma realidade, e a realidade é fictícia, especialmente em tempos de dominação de classe. A ideologia da classe que comanda é tida como única e verdadeira e mesmo os dominados aderem à ela como se fizesse parte de sua vida e de seus anseios mais profundos. É claro que aqui há vida inteligente, disso não temos a menor dúvida. O que acontece é que seis famílias controlam 70% da informação brasileira, tendo o poder de definir o que vai ser visto, lido e ouvido pela sociedade, além de decidir quem vai ser o herói e o vilão nessa grande novela. O que vemos na TV hoje não é a representação da população brasileira, mas a imposição da lógica cultural alienante da elite que ainda comanda essa nação.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Amar e pintar as coisas me interessa mais



Por essas bandas do sertão nordestino, “onde o sol seca e resseca tudo que existe”, três fatos – um deles nem tão inusitado – fez-se chafurdo por esses dias. Comecemos pelo “nem tão inusitado”, que é mais uma cassação da prefeita de Mossoró/RN, Cláudia Regina (DEM). Ela já foi cassada tantas vezes (passam de dez) que quando dizemos: “ei, tá sabendo que Cláudia Regina foi cassada?”, o povo retruca em tom de ironia: “foi mesmo? Conte-me uma novidade” e muda de assunto pra algo como futebol ou a última de Félix na novela das oito. Incluí esse causo na lista mais pra despertar o interesse do leitor, jogar com os números, sabe como é né? Ah, e claro, pra lembrar de quão falido e corrupto é o nosso modelo eleitoral, coronelista, ainda financiado pelas empresas que, obviamente, cobrarão seu quinhão depois de apuradas as urnas, bem como do descrédito da população em relação ao judiciário quando o assunto é condenar os donos do poder. Pois bem, nos detenhamos aos outros dois fatos.

O primeiro é o caso das intervenções artísticas na Universidade Federal Rural do Semiárido (Mossoró/RN). Durante um festival cultural os estudantes resolveram usar uma das paredes ociosas do campus como mural, e lá pintar seus sentimentos. Misturavam-se poesias, clássicos da MPB e frases com alusão à liberação sexual, principalmente das mulheres e gays, historicamente oprimidas. A confusão foi instaurada. Os golpistas de 64 se encheriam de inveja diante da multidão que se levantou contra a poesia sólida estampada nas paredes. “Isso é vandalismo”; “depredação”; “vão procurar o que fazer”. O caso foi parar na reitoria e os estudantes foram obrigados a “apagar tudo, pintar tudo de cinza”. Reflitamos: O que mais choca a nossa juventude hoje? Uma criança mendigando na rua ou palavras vivas escritas em um muro que dizem: gay, gozei e liberdade?

O intrigante aqui não é a defesa do patrimônio público supostamente violado pelas pinturas, porque, no fundo, não estavam preocupados com ele, nem tampouco houve qualquer violação. Caso estivessem mesmo interessados em preservar a universidade teriam engrossado as fileiras por um restaurante universitário de qualidade; estariam brigando por mais livros pra biblioteca ou pelo voto paritário nas eleições pra reitoria. Em verdade, o que realmente choca é o abalo à uma falsa moral branca, patriarcal, homofóbica e burguesa. 

É isso que incomoda. Parece que nossa juventude é mais conservadora do que há quarenta anos, quando esses assuntos eram ordem do dia na academia. Impressiona como simples palavras e ações, que já deveriam ter entrado na lista do cotidiano, ainda causam incômodo a certos grupos. O segundo fato que queria comentar é sobre a morte de Mandela, Mandiba para os mais chegados, o grande líder que com palavras, resistência e armas ajudou a pôr fim, pelo menos em parte, à segregação racial pelas bandas da mama África. O que tem a ver uma coisa com a outra? É que as mesmas pessoas que se referiram à Mandela como um grande herói foram as que chamaram de vândalos os que pintaram “amar e mudar as coisas me interessa mais” em um muro outrora cinza de uma universidade pública. Contraditório? Sim. A revolução é linda, mas do outro lado do Atlântico. Admitiremos palmas, palavras de efeito e até lágrimas, mas nada que abale nossos privilégios históricos, nem mesmo que simbolicamente. Ou seja, se querem mudar algo, que vão pra África do Sul.

Essa alienação voluntária dos jovens em relação à vida real e às opressões cotidianas vem se materializando em uma histeria coletiva recheada de um individualismo obrigatório. Usa-se o argumento da defesa dos bens da coletividade pra se dizer que não devemos nos importar com o coletivo. Reflitamos uma vez mais: o que é novo é necessariamente bom? O passar dos anos traz sempre consigo a evolução humana? Esse questionamento de temporalidade das coisas é importante, e nos situa em um dado contexto histórico. Ora, a música que ouvimos, a literatura que lemos e os líderes que admiramos nos ligam inexoravelmente a um passado não vivido que nos apaixona em razão de um presente vivido que nos decepciona. A dormência dos dias atuais faz com que busquemos utopia em um pretérito não experimentado. Não quero dizer de forma alguma que não temos motivos para ter esperança, não cometeria esse pecado – literalmente capital. O que me preocupa é a permanência teimosa de certos valores burgueses que há tempos já mereciam ter sido extirpados das páginas da contemporaneidade, valores esses que nem existiam, ou eram ao menos inexpressivos e tem servido de sustentáculo para as mais diversas opressões e imobilismos. 

É o caso, por exemplo, da imposição pela lógica do capital de uma distopia epidêmica que procura imprimir nos corações da juventude – ou pelo menos onde deveria haver um – a desesperança, a acomodação covarde diante de um mundo que, ao contrário, nos impele a sonhar e lutar. É como se amar e mudar as coisas não interessasse mais, virou démodé. É contra isso que devemos empunhar nossas armas, jogando nos muros do comodismo molotoves de esperança que, quebrados pela força propulsora da revolta, se desenhem em letras de utopia colorida, como as da universidade que se pintou um pouquinho de povo, e que Mandiba tanto sonhou!