Sonho
em ver o dia em que uma vida seja valorizada pelo simples fato de ser uma vida,
e não pelo status social que representa. A humanidade não será digna de receber
esse nome – humanidade - enquanto o roubo de um celular ou o vidro de um banco
quebrado escandalizar mais do que a vida de um pobre roubada por uma bala
perdida que é achada em seu corpo negro.
Uma
das grandes vitórias do capitalismo foi ter colocado o povo pra brigar entre
si, mascarando a realidade de que somos todos e todas integrantes de uma classe
oprimida que, para sua libertação, precisa se reconhecer como tal.
Tamanha
é a revolta de um trabalhador, de uma dona de casa, de uma professora, de um
motorista, quando tem que perder 40 minutos de seu dia em razão de um
engarrafamento causado por um protesto. O individualismo de nossos tempos tem
nos deixado indiferentes a dor do outro. Pressa de produzir. Pressa de consumir.
Não sabe o trabalhador, a dona de casa, a professora, o motorista, que perder
40 minutos na verdade não é perder, é doar um pouco de sua vida para que o outro e
a outra também possam ter vida.
Admiro
com todas as minhas forças o povo que se organiza mesmo contra a esmagadora
opinião pública, como é o caso do MST. Não sei se vocês já perceberam, mas não
é a coisa mais divertida do mundo morar por anos em um barraco de lona. Calor,
frio, fome, violência, medo, discriminação. Só posso achar que existe um outro
significado pra palavra “vagabundo” em algum dicionário que muita gente leu e
eu ainda não encontrei nas livrarias. Esses dias, ciclistas, daqueles que se
dão ao luxo de pedalar nas manhãs antes de pegar seu carro para ir ao trabalho
passaram em frente a um acampamento do MST viram duas senhoras e gritaram: “vão
trabalhar vagabundas”. O nível de imbecilidade de um ser desses é difícil de
medir. Gostaria de ter a oportunidade de propor a troca por apenas uma semana.
A agricultora sem-terra e vagabunda pedalaria nas manhãs em sua bicicleta de
três mil reais, assim cultivando a saúde e o ciclista – possível empresário –
dormiria em um barraco de lona preta sem agua a luz. Talvez assim ele mudasse
pelo menos um pouco seu conceito.
Escrevo
esse texto em meio a uma dor profunda que invadiu sem pedir licença os corações
dos sem-terra do Brasil. Vanessa, 12 anos, sem-terrinha acampada a beira de uma
estrada em Mossoró/RN foi atropelada logo após se despedir de sua mãe que saia
para atividades do movimento. O motorista, desesperado, fugiu. Pedro Munhoz canta:
Quem contar traz à memória/sabendo
que a dor existe/quando a morte ainda insiste/em calar quem faz a História/Pois
quem morre não tem glória/nem tampouco desespera/é um valente na guerra/tomba,
em nome da vida/Da intenção ninguém duvida. Continua: o Estado é quem enterra/e uma vida se encerra/em nome da
covardia/Toda a nossa rebeldia/quando matam um Sem Terra.
É
mais uma vítima do Estado que se nega a fazer reforma agrária. É mais sangue de
gente humilde que rega o chão que queria ver dividido. É mais um sonho
interrompido de uma criança que julgava poder fazer a revolução. É o relógio da
vida para sempre interrompido, alegria – mesmo que inconsciente – daqueles/as
que no auge de seu egoísmo se negam a ver no sofrimento do outro o seu
sofrimento. A nossa pressa em ver a polícia “quebrando tudo” é a mesma que
impede as mudanças estruturais nesse país e que, a cada dia, ceifa a vida de
nosso povo.
Hoje
a sem-terrinha Vanessa habita no mesmo panteão que Irmã Dorothy, Chico Mendes,
Margarida Alves, Padre Jozimo e tantos/as outros/as mártires da caminhada que a única
pressa que tiveram foi a de fazer um outro mundo possível e necessário.
Sem-terrinha Vanessa: presente na caminhada!
Sem-terrinha Vanessa: presente na caminhada!
Até
quando? Sempre, sempre, sempre!

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