Por
essas bandas do sertão nordestino, “onde o sol seca e resseca tudo que existe”,
três fatos – um deles nem tão inusitado – fez-se chafurdo por esses dias. Comecemos
pelo “nem tão inusitado”, que é mais uma cassação da prefeita de Mossoró/RN, Cláudia
Regina (DEM). Ela já foi cassada tantas vezes (passam de dez) que quando
dizemos: “ei, tá sabendo que Cláudia Regina foi cassada?”, o povo retruca em
tom de ironia: “foi mesmo? Conte-me uma novidade” e muda de assunto pra algo
como futebol ou a última de Félix na novela das oito. Incluí esse causo na
lista mais pra despertar o interesse do leitor, jogar com os números, sabe como
é né? Ah, e claro, pra lembrar de quão falido e corrupto é o nosso modelo
eleitoral, coronelista, ainda financiado pelas empresas que, obviamente, cobrarão
seu quinhão depois de apuradas as urnas, bem como do descrédito da população em
relação ao judiciário quando o assunto é condenar os donos do poder. Pois bem,
nos detenhamos aos outros dois fatos.
O primeiro é o caso das intervenções
artísticas na Universidade Federal Rural do Semiárido (Mossoró/RN). Durante um
festival cultural os estudantes resolveram usar uma das paredes ociosas do
campus como mural, e lá pintar seus sentimentos. Misturavam-se poesias,
clássicos da MPB e frases com alusão à liberação sexual, principalmente das
mulheres e gays, historicamente oprimidas. A confusão foi instaurada. Os golpistas
de 64 se encheriam de inveja diante da multidão que se levantou contra a poesia
sólida estampada nas paredes. “Isso é vandalismo”; “depredação”; “vão procurar
o que fazer”. O caso foi parar na reitoria e os estudantes foram obrigados a “apagar
tudo, pintar tudo de cinza”. Reflitamos: O que mais choca a nossa juventude
hoje? Uma criança mendigando na rua ou palavras vivas escritas em um muro que
dizem: gay, gozei e liberdade?
O intrigante aqui não é a defesa do patrimônio
público supostamente violado pelas pinturas, porque, no fundo, não estavam
preocupados com ele, nem tampouco houve qualquer violação. Caso estivessem
mesmo interessados em preservar a universidade teriam engrossado as fileiras por
um restaurante universitário de qualidade; estariam brigando por mais livros
pra biblioteca ou pelo voto paritário nas eleições pra reitoria. Em verdade, o
que realmente choca é o abalo à uma falsa moral branca, patriarcal, homofóbica
e burguesa.
É isso que incomoda. Parece que nossa juventude é mais conservadora
do que há quarenta anos, quando esses assuntos eram ordem do dia na academia.
Impressiona como simples palavras e ações, que já deveriam ter entrado na lista
do cotidiano, ainda causam incômodo a certos grupos. O segundo fato que queria
comentar é sobre a morte de Mandela, Mandiba para os mais chegados, o grande líder
que com palavras, resistência e armas ajudou a pôr fim, pelo menos em parte, à
segregação racial pelas bandas da mama África. O que tem a ver uma coisa com a
outra? É que as mesmas pessoas que se referiram à Mandela como um grande herói foram
as que chamaram de vândalos os que pintaram “amar e mudar as coisas me
interessa mais” em um muro outrora cinza de uma universidade pública. Contraditório?
Sim. A revolução é linda, mas do outro lado do Atlântico. Admitiremos palmas,
palavras de efeito e até lágrimas, mas nada que abale nossos privilégios
históricos, nem mesmo que simbolicamente. Ou seja, se querem mudar algo, que
vão pra África do Sul.
Essa alienação voluntária dos jovens em relação à vida real
e às opressões cotidianas vem se materializando em uma histeria coletiva
recheada de um individualismo obrigatório. Usa-se o argumento da defesa dos
bens da coletividade pra se dizer que não devemos nos importar com o coletivo. Reflitamos
uma vez mais: o que é novo é necessariamente bom? O passar dos anos traz sempre
consigo a evolução humana? Esse questionamento de temporalidade das coisas é
importante, e nos situa em um dado contexto histórico. Ora, a música que ouvimos,
a literatura que lemos e os líderes que admiramos nos ligam inexoravelmente a um
passado não vivido que nos apaixona em razão de um presente vivido que nos
decepciona. A dormência dos dias atuais faz com que busquemos utopia em um
pretérito não experimentado. Não quero dizer de forma alguma que não temos
motivos para ter esperança, não cometeria esse pecado – literalmente capital. O
que me preocupa é a permanência teimosa de certos valores burgueses que há
tempos já mereciam ter sido extirpados das páginas da contemporaneidade,
valores esses que nem existiam, ou eram ao menos inexpressivos e tem servido de
sustentáculo para as mais diversas opressões e imobilismos.
É o caso, por
exemplo, da imposição pela lógica do capital de uma distopia epidêmica que
procura imprimir nos corações da juventude – ou pelo menos onde deveria haver
um – a desesperança, a acomodação covarde diante de um mundo que, ao contrário,
nos impele a sonhar e lutar. É como se amar e mudar as coisas não interessasse
mais, virou démodé. É contra isso que devemos empunhar nossas armas, jogando nos
muros do comodismo molotoves de esperança que, quebrados pela força propulsora da
revolta, se desenhem em letras de utopia colorida, como as da universidade que
se pintou um pouquinho de povo, e que Mandiba tanto sonhou!

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