sábado, 7 de dezembro de 2013

Amar e pintar as coisas me interessa mais



Por essas bandas do sertão nordestino, “onde o sol seca e resseca tudo que existe”, três fatos – um deles nem tão inusitado – fez-se chafurdo por esses dias. Comecemos pelo “nem tão inusitado”, que é mais uma cassação da prefeita de Mossoró/RN, Cláudia Regina (DEM). Ela já foi cassada tantas vezes (passam de dez) que quando dizemos: “ei, tá sabendo que Cláudia Regina foi cassada?”, o povo retruca em tom de ironia: “foi mesmo? Conte-me uma novidade” e muda de assunto pra algo como futebol ou a última de Félix na novela das oito. Incluí esse causo na lista mais pra despertar o interesse do leitor, jogar com os números, sabe como é né? Ah, e claro, pra lembrar de quão falido e corrupto é o nosso modelo eleitoral, coronelista, ainda financiado pelas empresas que, obviamente, cobrarão seu quinhão depois de apuradas as urnas, bem como do descrédito da população em relação ao judiciário quando o assunto é condenar os donos do poder. Pois bem, nos detenhamos aos outros dois fatos.

O primeiro é o caso das intervenções artísticas na Universidade Federal Rural do Semiárido (Mossoró/RN). Durante um festival cultural os estudantes resolveram usar uma das paredes ociosas do campus como mural, e lá pintar seus sentimentos. Misturavam-se poesias, clássicos da MPB e frases com alusão à liberação sexual, principalmente das mulheres e gays, historicamente oprimidas. A confusão foi instaurada. Os golpistas de 64 se encheriam de inveja diante da multidão que se levantou contra a poesia sólida estampada nas paredes. “Isso é vandalismo”; “depredação”; “vão procurar o que fazer”. O caso foi parar na reitoria e os estudantes foram obrigados a “apagar tudo, pintar tudo de cinza”. Reflitamos: O que mais choca a nossa juventude hoje? Uma criança mendigando na rua ou palavras vivas escritas em um muro que dizem: gay, gozei e liberdade?

O intrigante aqui não é a defesa do patrimônio público supostamente violado pelas pinturas, porque, no fundo, não estavam preocupados com ele, nem tampouco houve qualquer violação. Caso estivessem mesmo interessados em preservar a universidade teriam engrossado as fileiras por um restaurante universitário de qualidade; estariam brigando por mais livros pra biblioteca ou pelo voto paritário nas eleições pra reitoria. Em verdade, o que realmente choca é o abalo à uma falsa moral branca, patriarcal, homofóbica e burguesa. 

É isso que incomoda. Parece que nossa juventude é mais conservadora do que há quarenta anos, quando esses assuntos eram ordem do dia na academia. Impressiona como simples palavras e ações, que já deveriam ter entrado na lista do cotidiano, ainda causam incômodo a certos grupos. O segundo fato que queria comentar é sobre a morte de Mandela, Mandiba para os mais chegados, o grande líder que com palavras, resistência e armas ajudou a pôr fim, pelo menos em parte, à segregação racial pelas bandas da mama África. O que tem a ver uma coisa com a outra? É que as mesmas pessoas que se referiram à Mandela como um grande herói foram as que chamaram de vândalos os que pintaram “amar e mudar as coisas me interessa mais” em um muro outrora cinza de uma universidade pública. Contraditório? Sim. A revolução é linda, mas do outro lado do Atlântico. Admitiremos palmas, palavras de efeito e até lágrimas, mas nada que abale nossos privilégios históricos, nem mesmo que simbolicamente. Ou seja, se querem mudar algo, que vão pra África do Sul.

Essa alienação voluntária dos jovens em relação à vida real e às opressões cotidianas vem se materializando em uma histeria coletiva recheada de um individualismo obrigatório. Usa-se o argumento da defesa dos bens da coletividade pra se dizer que não devemos nos importar com o coletivo. Reflitamos uma vez mais: o que é novo é necessariamente bom? O passar dos anos traz sempre consigo a evolução humana? Esse questionamento de temporalidade das coisas é importante, e nos situa em um dado contexto histórico. Ora, a música que ouvimos, a literatura que lemos e os líderes que admiramos nos ligam inexoravelmente a um passado não vivido que nos apaixona em razão de um presente vivido que nos decepciona. A dormência dos dias atuais faz com que busquemos utopia em um pretérito não experimentado. Não quero dizer de forma alguma que não temos motivos para ter esperança, não cometeria esse pecado – literalmente capital. O que me preocupa é a permanência teimosa de certos valores burgueses que há tempos já mereciam ter sido extirpados das páginas da contemporaneidade, valores esses que nem existiam, ou eram ao menos inexpressivos e tem servido de sustentáculo para as mais diversas opressões e imobilismos. 

É o caso, por exemplo, da imposição pela lógica do capital de uma distopia epidêmica que procura imprimir nos corações da juventude – ou pelo menos onde deveria haver um – a desesperança, a acomodação covarde diante de um mundo que, ao contrário, nos impele a sonhar e lutar. É como se amar e mudar as coisas não interessasse mais, virou démodé. É contra isso que devemos empunhar nossas armas, jogando nos muros do comodismo molotoves de esperança que, quebrados pela força propulsora da revolta, se desenhem em letras de utopia colorida, como as da universidade que se pintou um pouquinho de povo, e que Mandiba tanto sonhou!

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