quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Visita intergaláctica


          No último domingo pela manhã (08/12) uma comissão intergaláctica composta por representantes dos planetas Zeta-25, Beta 12, Alfa-ômega e Plutão chegou pela terra. Objetivo? Aprender um pouco sobre nosso sistema de comunicação em massa. Segundo o informativo "O eco do universo", cujo exemplar tenho aqui em minha mesa, vizinho ao copo de suco de goiaba, a expedição duraria um mês (no tempo terreno), e se dava em razão das várias reclamações por parte dos habitantes da galáxia. Segundo eles, os meios de comunicação do resto do universo estariam deixando a desejar na transmissão da cultura e cidadania, parece que apenas 80% da programação era dedicada à esses temas, estavam revoltados. Depois de ter acesso à uma revista do planeta terra - que um habitante do cometa Lonytik-Y teria ganho em uma de suas vindas pelo Brasil - a qual relatava as maravilhas de nossa comunicação, resolveram vir até aqui e aprender um pouco de nossos métodos revolucionários. O nome da revista era algo como "observe", "olhe", "Veja"... Algo nesse sentido.

       Pois bem, segundo o informativo, a análise seria feita pela programação dos canais de TV já que, na concepção da comissão extraterrena, seria o meio mais globalizado de se entender a comunicação pelas bandas de cá. Depois de uma avaliação onde seria o melhor local pra começar a pesquisa estacionaram sua nave exatamente sobre o céu da grande São Paulo. Alguns problemas apareceram. Mesmo trazendo seu material mais avançado, produzido pela zona franca da estrela Zion-C, a massa cinza de poluição que rodeava a nave impediu qualquer visualização do exterior. O capitão da operação tossia compulsivamente e a comunicação com o resto da galáxia já enfrentava problemas. Como dizia o filósofo espanta, São Paulo é a cidade do Brasil em que a gente vê o ar que respira. Isso sem falar nos pedágios - nas alturas, literalmente - que já comprometiam a verba conseguida via edital aprovado junto à ONU (Organização das naves unidas). Captando wifi de um dos arranha céus que de tão altos permitiam puxar seu sinal da estratosfera, além de impedir a circulação do ar e contribuir pra poluição, descobriram um lugar melhor pra ir. Foram para as bandas do Ceará. 

        Segundo o cruzamento de informações, o ponto mais propício para a pesquisa seria entre Mossoró e Fortaleza, precisamente em Aracati, a marola vinda de Canoa Quebrada teria uma capacidade incrível de harmonizar os sinais de transmissão. Porém, mais uma vez a pesquisa enfrentou turbulências. Ao passarem por Mossoró o sistema de localização entrou em pane, pelo cruzamento das informações do radar, como vento, umidade e principalmente temperatura do ar, os computadores de bordo identificavam a nave em algum lugar próximo ao sol. Os localizadores não se entendiam. Mesmo a latitude e longitude apontando para uma posição geográfica no nordeste brasileiro, os indicadores de temperatura ultra avançados se negavam a aceitar que não estavam na órbita solar.

        Já quase lançando seu alerta vermelho pro universo, que é usado em casos de extremo perigo, os tripulantes começaram a ouvir sons que não poderiam ser explosões de calor - como as da grande estrela - mas produzidos por um maquinário avançado. Até hoje eles não entendem bem do que se tratava, mas acreditam ter sido algum ritual religioso. As vestimentas das pessoas eram padronizadas e os cabelos também. No centro, o objeto do culto, na verdade vários deles, ao qual chamavam de "paredão". As pessoas estavam em volta, sem se comunicar entre elas, apenas atentas às palavras que saíam do que parecia ser o Deus daquele povo. Ao que parece eram politeístas e muito tolerantes, já que os vários "deuses" estavam um ao lado do outro a falar em grandes volumes coisas desencontradas que impediam de se ouvir perfeitamente qualquer palavra, mas todos pareciam felizes. Concluíram que "ão" se refere a algo espiritual, na cerimonia eram comuns expressões como "aqui é o som do avião" "segura safadão" e "sou putão". Isso foi uma grande prova de que as religiões trazem sempre a paz à humanidade, além de servirem como localizador pra viajantes de outros planetas. Depois de perceberem que estavam ainda na terra, resolveram se comunicar com os governantes daquele local.

      Nesse momento a crise se agravou ainda mais, já que a busca por essa figura não teve sucesso. Chegaram a pensar que seria uma comunidade anarquista avançada, sem líderes, mas logo viram que Tólstoi não tinha vingado por ali. Perguntadas sobre onde estaria o chefe, ou a chefe daquele povo, as pessoas apresentavam respostas totalmente sem sentido, como se a cada espaço curto de tempo a cidade tivesse um governante diferente, por causa de uma tal de cassação, compra de votos, prefeita highlander... já desistindo de tentar entender concluíram que seria algo como um revezamento, pronto. Seguiram rumo à cidade de Aracati, onde tiveram mais um problema de localização, dessa vez em razão da fonética. Nas aulas de português realizadas antes da visita, na escola interplanetária do cometa Bug-Bug, teriam aprendido o português coloquial, sem sotaques ou qualquer variação cultural. Daí que não encontraram a cidade de Aracati, mas Aracatxi. A linguagem do nativos era algo também muito novo pra tripulação "Tu é abestado má? vem lá da basta da égua pra fazer o que aqui? ô fulerage iiiieeerrrrrrr!” (esse som ainda não identificado era comum na boca daquele povo). Pois bem, já cansados e sem entender muita coisa amarraram a nave na nuvem mais próxima e se aquietaram por Aracati, melhor, Aracatxi. 

         De lá, sentados em forma de meia lua tendo grandes aparelhos de tv a sua frente, iniciaram as captações. Logo no primeiro canal tiveram uma surpresa, mulheres desfilavam com uma vestimenta que denominavam de lingerie, fato esse que se repetia no segundo, terceiro e quarto canal, e ao mesmo tempo. Aquilo parecia mais uma exposição de objetos a venda, e não eram as lingeries. Continuando a análise das emissoras chegaram em um ritual religioso, um pouco diferente do que tinha visto com a religião dos paredões (o que reforça a ideia desse povo ser politeísta). Nesse o líder falava de suas dificuldades financeiras, e de como seria importante presentar sua humilde e bela filha com um carro novo. Pedia a sensibilidade dos fiéis. Deus não esqueceria disso. Em outros canais outras cerimônias, mudava-se apenas a necessidade do líder, em um deles falava da importância de ter férias em Miami, estava muito cansado. Nesse algumas pessoas depositaram a seus pés uns poucos bens que tinham pra ajudar o servo do senhor. Em um deles passava também um homem que pulava e chamava uns animais pra subir numa tal de uma arca. Esse foi mais difícil de entender, principalmente qual a razão espiritual desses pulos. Enfim.

         Em outro canal, que parecia muito famoso, um senhor com roupa esquisita falava sem parar e fingia entrevistar pessoas. Fingia porque sempre interrompia o dizia os entrevistados e soltava um som tribal como "ô loco meu". Na emissora seguinte um homem de meia idade vendia um zilhão de produtos, sem, todavia, conseguir explicar qual a necessidade da maioria deles. Nesse mesmo canal, logo após as vendas, inicia um programa que parecia ter o intuito de resolver problemas familiares. As pessoas iam até a TV, sob o olhar de milhões de pessoas, dizer que foram traídas. No momento ápice da revelação o apresentador chama os comerciais. A comissão muda de canal e vê pessoas se digladiando. Chegaram a pensar que seria uma encenação épica medieval (como tinham lido sobre a história da terra), mas perceberam que se tratava de uma briga generalizada entre torcedores de um esporte onde os jogadores ganham milhões e não estão nem um pouco preocupados com o sangue de seus fãs que se espancam sem nenhum motivo racional aparente. É nesse momento que um dos membros da comissão bate na mesa, interrompe a transmissão e grita: “para, para, para! Fomos enganados. Vamos embora”. Depois de uma rápida reunião, a comissão intergaláctica, desapontada, antecipa sua volta, concluíram que não havia vida inteligente na terra.

Obs: A ficção é uma realidade, e a realidade é fictícia, especialmente em tempos de dominação de classe. A ideologia da classe que comanda é tida como única e verdadeira e mesmo os dominados aderem à ela como se fizesse parte de sua vida e de seus anseios mais profundos. É claro que aqui há vida inteligente, disso não temos a menor dúvida. O que acontece é que seis famílias controlam 70% da informação brasileira, tendo o poder de definir o que vai ser visto, lido e ouvido pela sociedade, além de decidir quem vai ser o herói e o vilão nessa grande novela. O que vemos na TV hoje não é a representação da população brasileira, mas a imposição da lógica cultural alienante da elite que ainda comanda essa nação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário