sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Natal em Utopia

        Como aqui, é natal em Utopia. Nesta época, mais do que em qualquer outra do ano, a cidade se alegra. Hoje recebi um e-mail de um velho amigo utopiense. Perguntava se não iria visitá-lo nas comemorações natalinas. Falei que infelizmente não poderia ir, estava ocupado demais com o trabalho. Interessante como os utopienses sempre ficam surpresos quando lhes falo do nosso Natal. Surpreendem-se com a árvore, com a neve, com as luzes e tantas outras coisas que em Utopia não existem. Riem por comemorarmos o Natal de forma individual e por haver em nossas casas grades que, segundo eles, fazem-nos prisioneiros. Acham curioso também a troca de presentes, talvez porque eu não tenha conseguido explicar a ligação entre eles, a data e o papai noel. Soltam sorrisos quando lembram daquele episódio na França, por volta de 1950, quando a população enforcou e queimou em praça pública o bom (?) velhinho. Quem fala disso melhor que eu é Levi-Strauss no que ele chamou de “o suplício do papai noel”. Depois perguntem-no, vocês vão gostar da história. 

        Então, lá em Utopia todos sabem qual o seu real significado e por isso celebram-no. Até os não-cristãos comemoram a data. Apesar de não creditarem no menino-Deus dizem eles existir algo mágico neste dia. De fato, o ideal de esperança, amor e justiça não tem credo.  Dizem eles que não precisam ser teístas para admirar alguém que por questionar a religião e a sociedade de sua época foi torturado, preso e executado, sendo um verdadeiro mártir político. 

       Pena que a maioria dos que se dizem seus seguidores tenham esquecido disso, e feito da religião um instrumento de alienação e opressão. Interessante como esse tempo longe de Utopia já tinha me feito esquecer as diferenças que existentes entre aqui a aquela longínqua ilha. Então é Natal, já dizia aquela velha (e chata) canção. Aqui é tempo de enfeitar a árvore, de trocar presentes, de reformar a casa, e só (isso, claro, para a ainda minoria que pode fazer isso). E só. Não precisamos de mais nada. Já temos até as luzinhas. Agradecemos ao menino Cristo por nos emprestar a sua data. Como há dois milênios atrás a história de repete. O menino não tem onde nascer (seria o fundador do movimento dos sem-teto?). A árvore é muito grande, ocupa espaço demais, ficaria feio, anti-estético. Imagina só ter que tirar a árvore? Mas desconfio que Ele prefira assim, nunca iria conseguir dormir com aquelas luzinhas piscando sem parar. Acho que lhe agrada mais o escuro de uma marquise ou de uma ponte. Aqueles brinquedos também o chateiam, eles brincam sozinhos. É mais afeito aos animais, são simpáticos, não precisam de pilhas. Na ponte há vários deles. Lá em Utopia Cristo nasce no coração dos homens. 

      Aqui, qual sem-teto, tem como berço pontes, guetos e favelas. Mas com isso uma coisa é certa: ao nascer entre os esfarrapados do mundo Cristo fez e faz opção de classe.

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