Como aqui, é
natal em Utopia. Nesta época, mais do que em qualquer outra do ano, a cidade se
alegra. Hoje recebi um e-mail de um velho amigo utopiense. Perguntava se não
iria visitá-lo nas comemorações natalinas. Falei que infelizmente não poderia
ir, estava ocupado demais com o trabalho. Interessante como os utopienses
sempre ficam surpresos quando lhes falo do nosso Natal. Surpreendem-se com a
árvore, com a neve, com as luzes e tantas outras coisas que em Utopia não
existem. Riem por comemorarmos o Natal de forma individual e por haver em
nossas casas grades que, segundo eles, fazem-nos prisioneiros. Acham curioso
também a troca de presentes, talvez porque eu não tenha conseguido explicar a
ligação entre eles, a data e o papai noel. Soltam sorrisos quando lembram
daquele episódio na França, por volta de 1950, quando a população enforcou e
queimou em praça pública o bom (?) velhinho. Quem fala disso melhor que eu é
Levi-Strauss no que ele chamou de “o suplício do papai noel”. Depois perguntem-no,
vocês vão gostar da história.
Então, lá em Utopia todos sabem qual o seu real
significado e por isso celebram-no. Até os não-cristãos comemoram a data. Apesar
de não creditarem no menino-Deus dizem eles existir algo mágico neste dia. De
fato, o ideal de esperança, amor e justiça não tem credo. Dizem eles que não precisam ser teístas para
admirar alguém que por questionar a religião e a sociedade de sua época foi
torturado, preso e executado, sendo um verdadeiro mártir político.
Pena que a
maioria dos que se dizem seus seguidores tenham esquecido disso, e feito da
religião um instrumento de alienação e opressão. Interessante como esse tempo
longe de Utopia já tinha me feito esquecer as diferenças que existentes entre
aqui a aquela longínqua ilha. Então é Natal, já dizia aquela velha (e chata)
canção. Aqui é tempo de enfeitar a árvore, de trocar presentes, de reformar a
casa, e só (isso, claro, para a ainda minoria que pode fazer isso). E só. Não
precisamos de mais nada. Já temos até as luzinhas. Agradecemos ao menino Cristo
por nos emprestar a sua data. Como há dois milênios atrás a história de repete.
O menino não tem onde nascer (seria o fundador do movimento dos sem-teto?). A
árvore é muito grande, ocupa espaço demais, ficaria feio, anti-estético. Imagina
só ter que tirar a árvore? Mas desconfio que Ele prefira assim, nunca iria
conseguir dormir com aquelas luzinhas piscando sem parar. Acho que lhe agrada
mais o escuro de uma marquise ou de uma ponte. Aqueles brinquedos também o
chateiam, eles brincam sozinhos. É mais afeito aos animais, são simpáticos, não
precisam de pilhas. Na ponte há vários deles. Lá em Utopia Cristo nasce no
coração dos homens.
Aqui, qual sem-teto, tem como berço pontes, guetos e
favelas. Mas com isso uma coisa é certa: ao nascer entre os esfarrapados do
mundo Cristo fez e faz opção de classe.
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